quarta-feira, 17 de junho de 2009

Rua Defensa (a caminho da Praça de Maio)

Depois de uma pequena (e importante! xD) pausa para falar sobre a simpática comunidade do "Couch Surfing", volto para a cronologia normal do blog :D

Como eu estava falando, saímos do aeroporto, chegamos no albergue e nos fomos apresentado ao nosso quarto. Este - devido a problemas como alagamento e outros - não nos deixou tão feliz assim xD. Porém como nós não viajamos para ficar dormindo no hotel, pra gente o quarto era o de menos heheh...

Apesar de eu ter feito uma descrição imensa sobre o Hostal de la Boca no penúltimo post, obviamente não ficamos tanto tempo nele quando chegamos. A descrição neste, evidentemente não é apenas sobre o primeiro dia, visto que funciona como um prefácio informal e antecipa vários dias da viagem e, além disso, no primeiro dia que chegamos no albergue nos preocupamos apenas em deixar as malas no quarto para poder andarmos por aí com as mãos livres

Antes de termos a emoção de caminharmos pela primeira vez nas ruas portenhas, nos encarregamos de falar com o camarada Damián (administrador do albergue) e pedir uma sugestão de onde ir. A sugestão dele foi meio óbvia, sabe aquele lugar bem manjado que todo mundo tem que ir quando quer conhecer uma cidade? pois então, essa é a Praça de Maio em Buenos Aires, a praça mais antiga da cidade.

O local sugerido pelo Damián, foi onde Buenos Aires foi fundado e, além de sua importância histórica e turística, a Praça de Maio é um dos principais lugares de manifestações e protestos no país (como o protesto das loucas de Maio que falo mais a frente). No local também se encontra os mais importantes prédios da capital argentina como o Banco de la Nación Argentina (equivalente ao nosso Banco do Brasil), o Museu Histórico do Cabildo, a Catedral Metropolitana e a por último a famosa Casa Rosada, que é a sede do governo argentino e também o lugar todo turista sem criatividade que vai a Argentina adora tirar fotos-clichê: a fotografia do indivíduo com a casa Rosada ao fundo!

Aqui, já adianto diversas fotos que tirei (junto com o meu pai) com a Casa Rosada ao fundo heheh:









uhauhauahauhau

para chegarmos à Praça de Maio o caminho ensinado pelo Damián era bem simples: saindo do Hostal de la Boca, atravessa o Parque Lezama e segue reto na Rua Defensa até o final.

abaixo o mapinha do caminho a ser pecorrido


Antes de começarmos a caminhada, fizemos uma pausa na padaria vizinha ao Hostal. Interessante como, até mesmo no simples ato de pedir o lanche, improvisar um portunhol pode não funcionar tão bem quanto imaginávamos e até mesmo render boas risadas. Pois apesar da maioria das palavras serem parecidas em ambas as línguas, achei impressionante como a pronúncia e o modo de falar faz com palavras iguais acabem ficando bem diferentes. E como nosso ouvido não está acostumado com o espanhol, é comum nos irritarmos por termos a impressão que eles sempre estão falando rápido, e as vezes eles se irritam por achar que nós que estamos falando rápido heheh

A melhor forma de tentar se comunicar ali na padaria era o famoso "habla despacito", ou seja, pedir para a pessoa falar mais devagar - quase em câmera lenta - o que tornava mais fácil entender aquela pronúncia confusa e tentar decifrar cada palavra que o cidadão falava. No entanto, várias vezes nos deparamos com palavras nada semelhantes o que complicava ainda mais a situação (uma clássica que aprendemos na hora foi "servilleta", que é o que chamamos de guardanapo). Porém, apesar de toda a confusão que rolava tanto da gente quanto deles na tentiva de nos fazermos entender, aquilo tudo era uma experiência divertida, que nos entretivemos tanto lá quanto em toda a viagem :D


Foto no Parque Lezama: a árvore ao fundo em destaque é o Jacarandá-mimoso, ao viajar para a Argentina percebe-se que esta árvore é muito comum por lá. Devido a facilidade em propagá-la e a beleza de sua floração, ela é muito utilizada na arborização de Buenos Aires

Saindo da padaria, atravessamos o Parque Lezama e seguimos para a Rua Defensa (em verde no mapa) em direção a Praça de Maio. Enquanto caminhávamos pela Defensa, nos deparamos com algumas situações:

- A rua argentina por um instante nos lembrou bastante do Brasil, quando encontramos um Banco Itaú por lá (Não existe banco argentino no Brasil, pelo menos de grande expressão. Mas a recíproca não é verdadeira... nós brasileiros comandamos hahah). Porém infelizmente não conseguimos sacar dinheiro no caixa porque o cartão era do Unibanco e na Argentina a fusão destes dois bancos ainda não tinha chegado :\

- Outra coisa que lembrou bem o Brasil na Rua Defensa foi quando paramos para conversar com o dono de uma banca de revista. Logo que falamos que éramos brasileiros o velho começou a falar de futebol, interessante que o cara era tão ligado nisso que até sobre o futebol brasileiro ele sabia bem mais que a gente. O velho ficou tão empolgado falando de futebol que só faltou dizer qual eram os jogadores do Brasil das copas de 50, 62, 66 e 70... - um a um! ... ele sabia quase tudo na ponta da língua uhauahu

- Apesar da Argentina ter a fama de barateira, a primeira impressão que tivemos enquanto estávamos na Rua Defensa a caminho da Praça de Maio foi o contrário, tomar um cafezinho por exemplo normalmente não saía por menos de 4 pesos (cerca de R$3) e um suco de laranja chegava a custar até 12 pesos (cerca de R$9). Preços absurdamente caros (!) Mas depois percebemos que estes itens normalmente tem preços mais elevados naquele país

-E por último encontramos na Rua Defensa algo bem incomum em Buenos Aires: uma pessoa negra. É tão raro encontrar um afro-descendente na Argentina que depois desse primeiro dia de viagem, só voltamos a ver um outro no último (e para piorar este ainda era um traveco brasileiro). Uma coisa interessante a frisar é que, ao contrário do que pensa o senso comum, a Argentina teve sim escravos africanos e muitos negros em sua população, exatamente como no Brasil e quase na mesma proporção. O fato de ter tão poucos negros hoje no país é um motivo nem um pouco nobre, ocorreu devido a um cruel genocídio do governo argentino contra essa minoria populacional: após a abolição da escravidão os negros em grande quantidade começaram a ser postos nas linhas de frente do exército argentino (como escudo humano) para serem os primeiros a levar tiro. E durante a época, devido aos vários conflitos que o país se envolveu (incluindo a Guerra do Paraguai), o governo argentino obteve um certo sucesso nessa sua tentativa bizarra de eliminar os negros e branquear a população. Por último uma epidemia de febre amarela serviu como golpe final para este extermínio macabro. Nos dias de hoje, porém, é comum os argentinos esconderem esse passado e negarem sua origem negra, cinicamente afirmando para si uma descedência puramente européia enquanto chamam nosotros de "macaquitos".

Depois de encerrarmos a caminhada na Rua Defensa, finalmente chegamos na praça de Maio, o assunto do próximo post =)

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Couch Surfing

No post passado não detalhei como conhecemos e porque nos hospedamos no albergue do Damián. Seria por causa do bom atendimento oferecido pelo camarada? Ou porque já sabíamos do ilustre Bairro La Boca e tínhamos curiosidade em conhecê-lo? Nada disso! rsrsr...

Apesar de já sairmos do Brasil com reserva marcada para o Hostal de la Boca, nós não sabíamos muito ao certo o que iríamos encontrar por lá, como muita coisa em nossa viagem fizemos as coisas meio por acaso e deixamos que nosso destino ficasse ao sabor da sorte (ou do azar rsrs) =D.

A escolha do Hostal, por exemplo, aconteceu por uma indicação sabe de quem? Do guia turístico da Veja? não... Daquela tia rica que vive viajando para o exterior? não... a indicação veio de niguém menos que um (desconhecido) estrangeiro aventureiro que ficou alguns dias hospedados na casa do meu irmão mais velho. Para ser mais exato, o argentino aventureiro (que nos indicou o Hostal) hospedou-se por alguns dias na república de estudantes onde meu irmão morava em Brasília ;)

Estrangeiro aventureiro e desconhecido??? Meu irmão hospedando argentino??? República de estudantes virando albergue??? essa história tá muito estranha, não? uahuahua... toda essa presepada que eu contei na verdade foi só pretexto para eu falar sobre o ilustre Couch Surfing. Só pelas curiosas indagações do início desse parágrafo já dá para perceber que esse tal de Couch Surfing é de outro mundo, né? hehehehe

Além desse argertino aventureiro que indicou o Hostal de la Boca, nessa época meu irmão chegou a hospedar também em seu apartamento duas americanas, um nepalês e uma chilena. Tudo isso graças ao CouchSurfing :D

O que seria essa tal de couchsurfing afinal? Trata-se de uma comunidade virtual muito interessante. Pode parecer loucura em um primeiro monento, mas o Couch Surfing visa basicamente uma experiência turística em que você recebe em sua casa estrangeiros totalmente desconhecidos. Foi assim que meu irmão, junto dos outros estudantes que dividem o apartamento com ele, pode ter uma experiência cultural de receber gringos em sua casa e fazer excêntricas amizades com pessoas do mundo inteiro

E o melhor, além de poder receber pessoas na sua casa, da mesma forma quando você estiver viajando dá para ficar na casa de outras pessoas, totalmente gratuito. Graças a isso, meu irmão conseguiu inclusive fazer uma ambiciosa viagem de volta ao mundo, só usando o couchsurfing!... o que reduziu o custo com hospedagem a praticamente zero! Muito louco não? Quem quiser saber mais sobre essa viagem, este o endereço do blog onde ele conta suas histórias, presepadas e experiências da volta ao mundo: www.omundonumamochila.com

Porém, infelizmente nós não usamos o couchsurfing nessa nossa viagem a Argentina, já que ficamos no Hostal de la Boca (que valeu muito a pena também :D). Mas, para quem for viajar para qualquer lugar e tiver interesse e mente aberta para novas experiências, vale muito a pena dá uma conferida na comunidade do Couch Surfing na internet: www.couchsurfing.com


Ps: Acima é uma foto da minha casa em São Luís (clique para ampliar) numa noite em que dormiram 6 gringos em nossa residência (haja espaço para colchão e rede, hein? uhauahu). A comida foi preparada por eles mesmo e o jantar foi bastante animado, uma experiência que valeu a pena =)

Por último, uma reportagem muito interessante sobre como funciona o couchsurfing: http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL295001-5602,00.html

segunda-feira, 11 de maio de 2009

El Hostal de la Boca

Depois da "pequena" (rsrs) apresentação do bairro La Boca, dessa vez vamos para uma introdução ao "Hostal de La Boca", aquele que seria o nosso novo lar durante os nossos divertidos dias em Buenos Aires =)



De início, fica a questão: O que seria um Hostal?

Para chegarmos na resposta da pergunta é necessário falar de coisas que atencederam nossa viagem. Quando ainda estávamos no Brasil, eu e meu pai demos uma boa pesquisada na internet sobre os mais diversos assuntos a respeito da Argentina, afinal era um local que nós nunca tínhamos ido e, em princípio, nem fazíamos idéia do que fazer por lá. O razão principal de nós termos escolhido este destino, não foi o fato de nós nos encantarmos com o tango, ou sermos fãs do Maradona ou, ainda, admirarmos a Evita Peron. O motivo principal foi porque ganhamos - a partir de milhagens da TAM - uma passagem para qualquer país da América do Sul. E já que nossa curiosidade de conhecer o Paraguai não era tanta assim, e nem nos interessamos em viajar para o Suriname, só nos restou a opção de escolher a Argentina heheh ;)

Como estávamos viajando meio por acaso, uma pequena pesquisa - sobre o país para onde estávamos indo - era algo mínimo a se fazer para pelo menos voltarmos vivo ao Brasil (para quem ainda não conferiu, as partes mais interessantes desta "pesquisa" foram reunidas neste post aqui). E durante essa pesquisa notei que muita vezes (principalmente em comunidades do orkut) as pessoas escreviam um estranho "Hostel" (com um "s" no meio) no lugar de "Hotel". Em um primeiro momento, essa forma diferente de escrever parecia apenas um erro de digitação, depois devido a quantidade de vezes que esse erro insistetemente se repetia comecei a achar que hostel era nada mais do que hotel em espanhol (inocente equívoco uhauhau). Somente mais tarde fui sacar o que realmente era um hostel.

Então, o que seria um "hostel"? Digamos, que é um local que tem de tudo para ser um hotel, hospeda pessoas como um hotel, cobra diárias como um hotel, lembra um hotel assim como um hotel, MAS NÃO É UM HOTEL!

E como não pode chamado como tal, chama-se de hostel. Deu para sacar? heheh... Talvez fazendo uma comparação fique mais fácil de entender. É algo semelhante a um fusca, ou então ao Corinthians: tudo nele lembra um carro, ou lembra um time, mas assim como fusca não é carro, Corinthians não é time, hostel não é um hotel!

Traduzindo do espanhol para o português, hostel seria algo aproximado ao que chamamos de albergue. Ou seja, uma alternativa barata de hospedagens para estudantes sem grana, viajantes pobres, aventureiros, ciganos, hippies, traficante de orgãos ou pessoas que são pegas de surpresa (e sem dinheiro!) por uma passagem gratuita da TAM. Como não estava no nosso plano uma viagem dessa, mas mesmo assim não queríamos perder uma passagem grátis (pô, de graça até busão pro lado errado!) valia a pena cortar os custos para viajar. E acredito que nada seja mais desnecessário em uma viagem do que se hospedar em um confortável hotel (afinal, o bom de sair de casa e viajar não é ficar dormindo no quarto, né?)

Explicado o que seria um Hostel, não foi respondida a pergunta do início do post, portando o que seria um "Hostal"? (o tipo de hospedagem onde ficamos). Assim como existe algo que chamam de hostel porque não pode ser chamado de hotel, hostal seria algo ainda mais abaixo, que como não pode ser chamado nem mesmo de hostel, chama-se de hostal. Brincadeira uahuah... até hoje não sei direito o que seria um hostal (para ser sincero só fui perceber que o nome era "Hostal de la Boca" e não "Hostel de la Boca" quando cheguei no Brasil hehe), mas na verdade é tudo a mesma coisa, já que ambos são albergue mesmo rsrsr


Cena de "O Albergue" - Filme de terror produzido em Hollywood

Depois da descrição sobre o Bairro La Boca e o que seria um hostel (ou "hostal"?) voltamos à cronologia normal do Blog. Após o percurso do aeroporto de Buenos Aires até o albergue com o taxista fanfarrão, chegamos ao nosso hospitaleiro "Hostal de la Boca". Na ocosião, a primeira diferença que percebemos de um albergue para um hotel, foi a ausência de uma recepção. Em vez de uma sala para aguardarmos sentado no sofá enquanto calmamente aguardamos nossa vez no atendimento, nos deparamos com uma singela campainha e ficamos esperando com as malas no lado de fora do prédio.

Após um pequena insistência na campainha, ouvimos o barulho na fechadura e uma pessoa com uma chave semelhante àquela chave de guarda roupa antigo (ou daquelas masmorras medievais) abriu a porta do hostal. Essa pessoa que nos recepcionou, era um espécie de faz-tudo do albergue: era recepcionista, administrador, informante turístico, tesoureiro... e nas horas vagas ainda era amigo para festa! O rapaz chamava-se Damián, um argentino muito gente fina que mais tarde - no nosso convívio com o albergue - se tornaria muito familiar para a gente.


Eis o Damián

Adentrando o albergue não havia sala, recepção ou semelhante, o local se resumia um enorme corredor que ia da portaria até o quintal, ou então escadas para os pisos superiores (que dava acesso a outros locais com o mesmo padrão, um enorme corredor retilínio - com várias portas anexas). Importante citar uma característica exclusiva daquele hostal: o seu colorido chamativo presentes nas paredes (tanto externas quanto interna) que é uma referência à (diversas vezes mencionada no post anterior) "personalidade" excêntrica do bairro La Boca.

Normalmente em albergue, é comum - como uma alternativa mais barata de hospedagem - um único quarto possuir várias beliches alinhadas (parecendo aquelas acampamentos militares de filme americano) e você ser obrigado a dividir o recinto e inclusive o banheiro(!) com outros desconhecidos, muitas vezes caracterizados por costumes escabrosos. Mas não foi dessa vez que descemos a esse nível rsrsr, apesar de estarmos pagando barato ficamos em um quarto-suíte privativo.

Depois de ser conduzido pelo Damián até o segundo andar, pudemos finalmente conhecer o nosso quarto: duas camas, um armário antigo, o sol entrava por uma pequena janelinha na parte de cima e um banheiro. Mas que banheiro! Era exatamente o oposto daquele banheiro que você idealiza encontrar em um hotel, banheirinho pequeno, tudo junto sem separação de box, sanitário daquele que se puxa a cordinha e dito cujo era tão estreito que o sanitário e a pia (um do lado do outro) quase se encostavam (mas graças a Deus, ambos eram bem asseados). E o chuveiro que saía da parede ficava quase em cima do sanitário!

O mais complicado de tomar banho naquele banheiro era arranjar um local para pendurar a roupa sem que ela molhasse. Já quanto ao quarto, era inevitável alagar após cada banho que tomávamos, visto que que o chão dele e do banheiro eram do mesmo nível e a porta não encostava no piso para impedir a saída de água. O pequeno pano de chão que colocávamos na saída do banheiro não era suficiente na tentativa de impedir que o quarto fosse alagado. A descarga então era um caso a parte, não podia-se usar toda hora, pois depois de cada descarga ele ficava intermináveis minutos carregando (quase meia-hora!), com um incômodo barulho de água passando por enorme cano que ficava exposto no teto.

Outra coisa que observamos depois, era que o quarto não possuía lixeira! Nenhuma, nem mesmo no banheiro! Além do albergue não fornecer serviço de camareira, café da manhã, itens como papel higiênico, sabonete ou toalha... para oferecer aquele preço mais camarada eles não tinham trabalho nem mesmo com o recolhimento de lixo! Já que para isso nem lixeira o quarto possuía ehehe (nesse caso tivemos que nos virar improvisando com sacos plásticos)

A principal área comum do albergue era a cozinha, óbvio que não tinha nenhum funcionário para lhe atender (afinal, o nosso amigo "faz-tudo" Damián podia ser versátil nas suas funções, mas já é desumano querer que ele ainda fosse cozinheiro, garçom e lavador de prato rsrs) e não havia nem mesmo comida por lá! Quem quisesse que se virasse e comprasse seu miojo na quitanda, porque um pequeno fogão ficava disponível ali para quem quisesse ferver seu macarrão instantâneo. Sobre a pia encontrava-se uma pequena quantidade de talheres, porém deveriam ser lavadas logo em seguida por quem as utilizasse. A cozinha era pequena e quando tinha muita gente, o espaço era pouco. Mas nela o que mais me marcou mesmo foi a geladeira, que - de tão velha - não usava ímã e sim um antigo sistema de manivelas, algo que nunca tinha visto em minha vida! (mas, que por incrível que pareça, ainda funcionou bem)

Apesar de tudo, nossa estadia no albergue não foi tão ruim, situações como essa já eram esperadas e depois de alguns dias mudamos para um quarto melhor (que tinha janela grande e não alagava após o banho!). E pondo todos os pesos na balança, diria que a experiência no albergue foi até positiva, pois nele encontramos algo que não vemos em hotel e dinheiro nenhum paga: uma boa convivência. O convívio no albergue, ao contrário do que normalmente acontece em um hotel, não se resumia a um "boa noite" ou um "bom dia". Naquele ambiente mais acessível e informal, nos deparamos com os mais diversos tipos de pessoas, os hóspedes pareciam mais bem humorados, mais abertos a fazer amizades e o dia-a-dia era mais animado. Além de hóspedes, muito ali tornaram-se sobretudos amigos.

Entre o mais diversos tipos de pessoas que a gente conheceu (desde um turco mal-humorado até um "casal punk" que aparentemente ganhava a vida fazendo malabarismo no trânsito), entre o animado churrasco organizado pela galera, entre o bom humor do Damião (e dos hóspedes) e entre diversas outras coisas que vem à memória, poderia dizer que, apesar de tudo, o Hostal de La Boca deixou inclusive saudade!


Fente do Hostal (Observe o colorido caraterísticos de edificações do Bairro La Boca!)



Uma visão parcial do grande corredor citado no texto (com visão do primeiro andar do hostal)



Um grande ponto positivo do Hostal era a sua privilegiada localização em Buenos Aires, próximo a quase todos os pontos turísticos, além de ter privilegiados pontos de ônibus, onde passavam dezenas de linhas para quase todos os lugares da cidade.



terça-feira, 28 de abril de 2009

El barrio La Boca


O BAIRRO "LA BOCA":




Como prometido, neste post falarei sobre o bairro que nos hospedou durante nossa estada em Buenos Aires: o bairro "La Boca" (enquanto que, no próximo post comentarei sobre o lugar do bairro onde ficamos hospedados: "El Hostal de la Boca")

Quando chegamos em "La Boca" vimos um bairro comum como qualquer outro. Mas nós não sabíamos dos curiosos locais e a interessante história que ele nos escondia por trás do seu cotidiano aparentemente tão normal.

Entre edifícios quaisquer e avenidas movimentadas, algo tão comum em qualquer cidade grande, pudemos notar algo de diferente: uma pequena parte da avenida na entrada do bairro com construções artísticas e pintadas com cores chamativas - fazendo um interessante contraste com o ambiente urbano de cor cinzenta. Abaixo uma foto deste "pedaço de avenida":




Nada demais, diria um turista desavisado (ao ver o "pedaço de avenida" da foto acima). Realmente, é verdade, nada demais... inclusive foi o que nós pensávamos toda vez quando passávamos pelo local: algo comum, nada aparotoso, que nem nos chamou muita atenção quando vimos em um primeiro momento.

Porém, o que nós descobrirmos somente depois de um bom tempo, era que aquele "pedaço de avenida" não estava ali por acaso, tinha um importante significado dentro da curiosa história do bairro "La Boca". O pedaço de avenida em si, era apenas uma pequena réplica de algo maior: o "Caminito" (uma interessante atração turística do bairro argentino).



O que é o Caminito? O Caminito é uma famosa atração de Buenos Aires que fica no bairro La Boca (a alguns minutos do local onde nos estávamos hospedados), e é considerado um dos maiores museus do mundo a céu aberto. O Caminito na verdade é uma rua do bairro La Boca, mais especificamente uma rua-museu, sua principal características é que a rua inteira (incluindo todas as suas casas e construções) é toda colorida - pintada de forma criteriosamente artística, com as mais chamativas cores. Caminhando por esta rua artística, o que se ver é uma arte onipresente, um colorido que preenche todo o campo de visão e encanta a pessoa que caminha pelo local.

Porque descrever tanto o Caminito? Além de sua relevância como cartão postal para Argentina, essa famosa atração turística tem sua óbvia importância no contexto do post porque aqueles murais coloridos - do "pedaço da avenida" que citei acima - fazia referência ao Caminito (mais colorido ainda). E o Caminito por sua vez, faz referência direta a história do Bairro La Boca, tema central que estou tratando agora. Voltando a falar desta curiosa história do Bairro La Boca, com tanto colorido pelo meio fazendo referência a esta, é de se imaginar que o passado deste bairro foi o melhor possível, né? As aparências enganam...

O passado do Bairro La Boca, muito pelo contrário, é meio sombrio. A região que hoje compreende este bairro sempre foi uma das partes mais degradadas e pobres de Buenos Aires. A sua única importância dava-se em função da boa localização perante o imponente Rio da Prata, que fez com o bairro tivesse um dos mais importantes portos da cidade. E a economia dependendo do porto, cominou com que a região fosse tipicamente de marinheiros - pobres em sua maioria.

Porém, atualmente, em contraste com seu passado, La Boca é um bairro com infraestrutura e urbanizado como qualquer outro bairro de classe média, e com o seu diferencial: o badalado Caminito - o centro colorido de artes que orgulha os argentinos. Fica a dúvida portanto: qual seria a estranha conexão entre o passado de marinheiros miseráveis do Bairro La Boca e a atual atração turística de cores vibrantes (o Caminito)?

Aí que entra a parte interessante da história: pode não parecer, mas ambos estão diretamente relacionados. Paradoxalmente o badalado colorido (hoje representado principalmente no Caminito) tem origem na miséria reinante do passado! Está relacionado às sobras de tintas que os marinheiros pobres do bairro La Boca traziam do porto para sua casa. Como a quantidade era escassa para pintar toda a casa de uma mesma cor, eles aproveitavam até a última gota da tinta de cada lata que com muito esforço conseguiam. As casas, portanto, acabavam sendo pintadas de várias cores, cada janela de uma cor diferente, a porta de outra cor e a parede de várias cores.

Com as casas dos marinheiros construídas a partir de tábuas de madeiras, placas e telhas de metal, e até mesmo (pasmem!) pedaços de navios, o bairro La Boca cresceu ao redor do porto, e na época era marcado por sua característica inconfundível: aquele cenário marcado pelas casas pitorescas pintadas com muitas cores... casas multi-coloridas! Porém com o tempo, aquele porto foi perdendo importância, o bairro diversificou suas atividades, cresceu para outras áreas e urbanizou-se. Já aquela antiga zona portuária do bairro - onde existiam as famosas casas multi-coloridas, símbolos do penoso passado - a cada dia tornou-se mais decadente e acabou por se tornar uma imensa favela!

No entanto, apesar de ter virado uma favela e ter perdido sua importância de antigamente, a zona portuária do bairro La Boca voltou a ser relembrada mais tarde: quando artistas plásticos tiveram a brilhante idéia de restaurar em forma de arte o sofrido passado do La Boca. E esse renomado "colorido" dos miseráveis marinheiros de outrora, passou a ser pintado em quadros, paisagens e artes no geral. Chegou a tal ponto, que as cores vivas passaram a serem adotadas como parte da própria personalidade do bairro La Boca: em referência àquelas casas multicoloridas, edificações de hoje são pintadas com cores diversas e há representações destas cores vivas espalhadas por todo bairro, como no exemplo do "pedaço de avenida" que eu mostrei acima. O próprio local onde nos hospedamos - El Hostal de la Boca (o qual dissertarei no próximo post) - foi pintado em referência as estas cores vibrantes que se tornou uma personalidade controvertida do bairro.

O auge desta arte está exposta no Caminito. Visando representar de forma mais fiel esse pitoresco passado colorido do La Boca, artistas optaram por uma rua da própria antiga zona portuária (e atual favela!) para restaurar as suas cores: escolheram a (até então inexpressiva) "Rua Caminito" - onde ficava um singelo ramal ferroviário, cheio de terra e pedra - para ser revitalizado e transformado em um ponto turístico: a referida rua foi toda colorida, os singelos casebres e barracos locais foram artisticamente pintados e enfeitados. Além disso, a inclusão de bares, artesanatos, lojas e restaurantes tradicionais tornaram aquela singela rua em uma atração de apelo mundial. Hoje o local recebe turistas do mundo inteiro, que ficam encantados com o lugar de cores vivas que "transpira arte" para todos os cantos.


Foto de eu e meu pai na entrada do Caminito

Mais cabe aqui um pequeno detalhe dessa empreitada: hoje temos uma das mais importantes atrações turísticas de Buenos Aires no meio da ex-zona portuária, ou seja, NO MEIO DE UMA FAVELA! Esse fato torna o Caminito um local que necessita o tempo todo ser fortemente policiado, e que não permite o vistitante se afastar muito da parte turística (onde concentra-se o policiamento) por correr o risco de ter até os rins roubados. Chega-se lá de ônibus e sai-se de ônibus. Quando eu e meu pai fomos ao local - além de contemplarmos o Caminito - pudemos notar tanto a atual decadência desta antiga região do La Boca (claramente visível na favela que envolve e se contrasta com toda a atração turística) quanto os resquícios do passado: na volta do Caminito em direção à parada de ônibus, nós fizemos um pequeno descaminho se aproximando do rio para observar àquela que foi em tempos antigos uma importante zona portuária; o que sobrou dela foi um rio fedorento e poluído, barcos abandonados e uma ponte em desuso.

Para não fugir a cronologia do blog, não vou entrar em mais detalhes sobre nossa visita ao Caminito, já que nós fomos lá em nossos último dias de viagem e o tema do post atual é o La Boca, bairro que nos recebeu quando chegamos em Buenos Aires (somente mais para frente, quando for feito um post especificamente sobre o Caminito, será postadas mais detalhes sobre ele e as várias fotos que foram tiradas neste admirável lugar)

Toda a descrição sobre o Caminito, sobre as cores vibrante e não deixando de incluir também as referências ao murais coloridos (do "pedaço de avenida" da foto lá em cima) fazem alusão à personalidade controvertida do Bairro La Boca. O que não deixa de ser também uma sátira da sua própria história - marcada pelos seus antigos marinheiros com casas multi-coloridas. Interessante observar, como até mesmo um inocente bairro (e não somente algo mais significativo como uma cidade ou um país) pode ter uma história, uma personalidade. Se me perguntassem, por exemplo, sobre a história de meu bairro, eu não saberia o que responder. Já o La Boca além de história, possui inclusive uma personalidade própria. Algo realmente notável e motivo de orgulho para os argentinos que nele residem! E merecedor de um enorme post como este que foi dedicado exclusivamente a ele! (além da homenagem ao bairro que está presente no próprio nome do blog!)



Algumas fotos tiradas no "La Boca" para encerrar o post:


Rio "morto" da ex-zona portuária: importante fonte econômica do La Boca no passado. Hoje apenas uma fonte de mal-cheiro que incomoda os turistas a caminho do Caminito!



Antiga fábrica do Bairro La Boca



Essa aqui foi uma cena vergonhosa que presenciamos no La Boca: motoqueiro sem capacete! - cena que no Brasil só vejo no interior do Maranhão por exemplo, na Argentina a gente viu isso em plena capital federal!



Outra importante atração do bairro La Boca é o famoso estádio La Bombonera. Estádio do Boca Juniors, time com maior quantidade de torcedores da Argentina (além de tudo, foi no La Boca que brotou o maior time de futebol da Argentina!). O estádio La Bombonera está sempre aberto para visitações e vem gente do mundo inteiro, mas como eu nem curto muito futebol, nós nem perdemos nosso tempo indo lá xD

terça-feira, 21 de abril de 2009

En La Boca de la Argentina: A origem do nome!

Visto que finalmente chegamos em nosso "novo lar" em Buenos Aires, já é coerente revelar a origem do simpático nome do Blog.



Por mais que o nome do blog possa dar asas a imaginação, o motivo para este não tem nada a ver com as possibilidades que podem ser imaginadas em um primeiro momento.

"La Boca" é um bairro de Buenos Aires, com diversos atrativos (e não atrativos também rsrsr) e uma rica história. O motivo para ele ter emprestado seu nome para o Blog, além das características já citadas, está o fato dele ter sido a local onde ficamos a maior parte dos nossos nove dias de viagem - por um motivo óbvio, neste bairro se encontra o estabelecimento onde nos hospedamos: "El Hostal de la Boca".

Seja o bairro "La Boca" ou o "Hostal de la Boca" (nosso novo lar), ambos marcaram muito nosso cotidiano na Argentina e foram decisivos para a escolha do nome do Blog. (já a boca mesmo propiamente dita, infelizmente não entrou na história nem ao menos como o nome de origem do bairro rsrs, já que este surgiu por causa da grande "boca" de um humilde rio local que deságua no célebre Rio Prata).

Os próximos posts do blog se encarregarão de relatar detalhes sobre esses curiosos e marcantes locais =)

domingo, 12 de abril de 2009

Taxi argentino

Para ilustrar o último post - do qual foi citado a padronização de taxi na Argentina - aqui vai uma foto que eu tirei da sacada do Shopping Alto Palermo, em Buenos Aires :
-Os taxis argentinos lembram mais carro de polícia, não? =)



abraços

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Finalmente em Buenos Aires!!!

Desci do avião e finalmente toquei no chão argentino, era a primeira vez em minha existência que pisava em solo não brasileiro - e que pude ter o prazer de respirar o ar de Buenos Aires (finalmente!) - seria um momento mágico se não fosse um pequeno porém: a maldita fila da imigração! Como tinha demorado a descer da aeronave e pegado o final da fila, eu e meu pai tivemos que aguardar bastante no recinto, porém a espera foi suavizada por passarmos parte do tempo conversando com duas brasileiras que conhecemos no local. Após a delonga, finalmente chegamos no agente de imigração e passar por ele foi necessário apenas a identidade (como já dito a Argentina não exige o passaporte) e uma ficha pessoal que deveria ser previamente preenchida quando entregue no avião, mas como eu estava dormindo no momento da entrega, eu não havia recebido e tive que preencher na hora rsrsr (e atrasar mais a fila heheh).


Foto do Aeroporto Internacional de Ezeiza - Buenos Aires

Uma vez no aeroporto de Buenos Aires, já tínhamos uma idéia do albergue onde íamos ficar, mas ainda não sabíamos como ir, porém quanto a isso não restava outra opção: "taxi". Alternativa quase sempre meio cara, além do risco, já que taxista que faz viagem para gringo é igual a político, achar um que seja honesto é mais raro que encontrar gaúcho macho. Para dá uma suavizada no preço, o meu pai se encarregou de procurar pelo aeroporto as brasileiras que nós havíamos conhecidos (para dividir taxi, ou quem sabe, obtermos uma carona) e eu fiquei esperando na parte externa do aeroporto vigiando as malas.

Enquanto eu aguardava lá na parte de fora, batia uma certa sensação de insegurança, estava eu ali naquele país estrangeiro sem ao menos saber a língua do local, sempre dava aquela imprensão que se eu desse qualquer chance para perceberem que eu era um gringo - ainda mais sozinho no meio do nada - na primeira oportunidade iriam tentar me roubar ou passar a perna. Então fiquei parado ali, me apoiando nas malas e fiz uma cara de poucos amigos, enquanto curiosamente observava o local: a sensação de presenciar pela primeira vez várias pessoas conversando em um idioma diferente do seu - de forma tão natural - foi uma experiência memorável. Comecei a me sentir bem por está ali presente pela primeira vez em um país estrangeiro, o sentimento de insegurança aos poucos foi dando lugar a um sentimento de excitação.

Porém, desfrutando daquele êxtase, fui subitamente interrompindo: "Buenas tarde, caballero!". O susto repentino ao ser abordado por um estranho desconhecido fez com que eu voltasse a realidade, e junto com ela a sensação de insegurança de um gringo desamparado. Desconfiadamente olhei para quem me cumprimentava, era um senhor, de meia-idade, bem vestido e que se locomovia com auxílio de uma muleta apoiada no braço direito; demonstrava-se simpático e com desejo de aproximar-se. Ainda assustado, não pronunciei nenhuma palavra já que não queria deixar transpor minha vulnerável condição de estrangeiro, apenas dei um sorriso por educação e logo em seguida fiquei sério, evidenciando que não queria conversa e que desconfiava de suas possíveis más intenções.

Mas desafortunadamente minha reação não foi suficiente para fazê-lo com que desistisse de aproximar-se, ele continuou ali e apesar de eu fazer questão de não me expressar em nenhum momento (praticamente ignorando-o) ele começou a puxar assunto. A vontade maior era de evitá-lo a qualquer custo, mas depois passei a achar a situação engraçada: eu não entendia nada do que o velho tava falando e por isso eu ficava só confirmando com a cabeça, enquanto ele continuava e se empolgava conversando ali sozinho. Nesta primeira experiência percebir que o espanhol não é tão parecido com o português como eu acreditava, é quase imcompreensível quando a pessoa fala naturalmente, ou seja, rápido. Mas mesmo assim percebi que o velho não tava querendo dinheiro ou algo parecido (graças a deus), só que isso só me deixou ainda mais confuso para entender qual seria a real intenção dele no entanto. Fui sacar só depois de um tempo: era um suposto taxista (e tudo indicava que ele já tinha conversado com o meu pai e que tava ali me alugando só para não perder o cliente)

Fiquei mais tranquilo e finalmente resolvir falar algo. Apesar dele se esforçar, muitas vezes ele não compreendia bem o que eu falava, e eu também penava para entendê-lo, mas era agradável (e muito engraçado) ficar ali tentando se comunicar. Porém resolvi interromper as tentativas de diálogo quando ele começou a fazer muita pergunta de cunho pessoal e demonstrar interesse nisso, voltei ao precavido estado de desconfiança e comecei a demonstrar desinteresse na conversa. Novamente deixei o velho, e "suposto" taxista, falando ali sozinho. Quando ele se tocou, parou de falar, mas mesmo calado não desgrudou de mim, já que não queria perder o "suposto" cliente.

Retornei ao meu estado de observação, enquanto aguardava meu pai e tentava tolerar aquele homem suspeito parado do meu lado. No movimento de entra-e-sai do aeroporto, pude constastar um costume argentino bem curioso (e não tão masculino, diga-se de passagem... uhua): "homens se beijando". Calma! Antes de ter pensamento sujo e achar que tratava-se de um mega-encontro GLS no lado de fora do aeroporto, adianto logo que eram apenas beijinhos no rosto. Algo que é bem habitual aqui no Brasil quando encontramos amigAs ou conhecidAs, na Argentina também é comum você beijar amigOs ou conhecidOs, dois argentinos barbudos que sejam íntimos costumam dá beijinhos quando se encontram... Surpreendido, caro leitor? pelo jeito a semelhança entre os hermanos e os nossos amigos gaúchos - como citada em um post passado - é bem maior do que se imagina. Além do churrasco e do chimarrão, se assemelham até mesmo na "baitolagem" uahuauhua

Enquanto eu presenciava aquela cena não muito masculina de "hermanos" se encontrando e beijinho daqui e beijinho de lá (esses argentinos... sei não, hein?), o suposto taxista - que ainda insistia ali do meu lado - pediu emprestado a revista da Tam que estava no meu carrinho de bagagem e tentou usá-la recuperar a minha atenção. Ainda mantendo o estado de desconfiança, eu não dava bola enquanto ele folheava a revista e insistia em fazer alguns comentários para puxar conversa (eu nem compreendia direito o que ele falava), mas teve um momento em que eu tive que ceder: ele abriu a revista numa página em que tinha uma mulher em trajes atraentes e emendou a pergunta num tom de sarcasmo: "Te gusta, caballero?". Nessa hora eu vi que era meio arriscado ignorar mais um comentário: o bicho tá meia hora ali me "paquerando", faz uma pergunta muito interessado e além de tudo AINDA É ARGENTINO???!!! pô, meio "cor de rosa" essa parada, hein? A real intenção do velho parecia que finalmente ter dado as caras. Antes da coisa piorar pro meu lado, melhor era deixar bem claro pra "ele" que apesar de brasileiro eu não era nem um pouquinho gaúcho, e respondi com firmeza: "claro... si, si, me gusta mucho". Em seguida o velho soltou uns comentários incompreensíveis em espanhol que me forçou a fazer uma cara de "hã?", e ele se matou de rir. Na hora, eu não sabia se eu ria também ou se ficava sério porque o velho podia tá tirando com a minha cara... mas pelo menos deu para perceber que as intenções dele não eram tão "argentinas" quanto tinha dado a imprensão naquele momento... ufa!

Fiquei mais um tempo aturando aquele suposto taxista e meu pai finalmente apareceu. Apesar da demora, ele não tinha conseguido encontrar as brasileiras. Mas aproveitara aquele tempo para fazer algumas coisas úteis, como por exemplo ir na casa de câmbio trocar os reais por pesos argentinos, já que a moeda brasileira normalmente não é aceita no país de Maradona. Quando vi meu pai pegando as malas percebir que, como previsto, ele e o velho realmente já tinha tido um papo anteriormente. Carregamos as bagagens para o porta-mala do carro daquele senhor e adentramos o veículo. O carro dele não era bem um taxi, pois não tinha nem mesmo padronização! (a padronização oficial de taxi em Buenos Aires, como pude constatar posteriormente, é as cores amarela e preta, mas parecendo um carro de polícia).

Durante o percurso aeroporto-albergue, voltei àquela sensação de insegurança devido à vulnerabilidade de está sendo conduzido por um desconhecido dentro de um país igualmente desconhecido. Aquele suposto taxista teria me alugado durante meia-hora apenas para ganhar alguns trocados usurpando a função de um taxista formal ou tinha ele a intenção de ganhar bem mais de alguma maneira desonesta??? A tensão aumentou ainda mais nas partes em que o carro saiu da auto-pista e da parte moderna de Buenos Aires e passou por umas ruas obscuras, com jeito de favela. Apesar do velho conversar o tempo todo querendo demonstrar-se simpático, por um momento aparentou tratar-se de um sequestro ou semelhante. Mas graças a Deus, tudo ocorreu bem. Chegamos no alberque com segurança, o velho era apenas um taxista pirata e um bom conhecedor dos atalhos e caminhos mais curtos de Buenos Aires. =)